terça-feira, 21 de dezembro de 2010
FUNERAL - PARTE 01
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
PRÓLOGO
Harumi lembrava-se do tempo em que atraía os olhares de todos na cidadela com a sua incrível beleza, assim com essas exibidas flores rosadas faziam nesta época do ano. Talvez fosse por isso que a incomodava tanto olhar para elas agora. Antes, elas costumavam ser coadjuvantes por onde Harumi passava. Senhores de terras dirigiam-se, com frequência, a sua família com propostas de casamento. Ela se divertia muito em pedir para seu pai recusá-las. Ela fazia muitas das vontades dela, o que era raro entre os patriarcas da época. — Se fosse possível retornar alguns anos... Apagar alguns passos e refazer alguns castelos... — Suspirou alto. Deixou-se levar por devaneios nostálgicos durante algum tempo, enquanto via o vento carregando as dolorosas pétalas rosadas das flores das sakura.
— Harumi, vamos! — Foi trazida de volta à realidade pela voz aguda de sua dama de companhia. — Já está na hora!
— Yasu, venha, ajude-me a levantar... — Era difícil para ela se locomover naquele estado. Apoiou-se nas palmas das mãos firmes e ásperas da criada e se levantou do pequeno banco estofado que ficava abaixo da grande janela do aposento. Deixou escapar um gemido, misto de esforço, desconforto e dor.
— Há algo errado senhora? — Perguntou a criada.
Todas as respostas ríspidas vieram-lhe à mente. Como se aquela velha não soubesse! Eram quase 7200 horas de coisas erradas e ela ainda tinha de ser gentil, cortês e, pior ainda: hospitaleira. Receberia o Daimyô para o chá. Provavelmente ele traria as condolências pela honorável morte horrível e sangrenta de seu marido defendendo a vida de algum membro importante da aristocracia, ou a honra preciosa de uma inocente pétala de sakura. Então, ela simplesmente respondeu:
— Está tudo bem, Yasu. Só um pouco cansada com tudo isso. Agradeço-lhe pela ajuda.
sábado, 9 de janeiro de 2010
Papilote - Final

Quando amanheceu o dia, dona Tianinha levantou de supetão,dando os passos pesados de sempre e se deparou com um bando de criança dormindo espremida no cantinho da sala, e Maria Pailote toda esparramada, sozinha, na cama do quartinho da bagunça. A matrona tratou de espatifar com a molecada toda e perguntar o que tinha acontecido pra dormir todo mundo ali que nem rato pelado com frio no mato.
Maria Papilote levantou-se enquanto as crianças terminavam de contar o ocorrido na madrugada anterior.
- Dormiu bem prima? – Perguntou doa Tianinha.
- Muito bem! A cama tava muito boa...
- Mas ocê num tinha ido durmi no canto da sala perto da estante?
- Tinha... Mas eu vi a cama vazia e fui deitar lá.
- Bão! Agora vamo toma jeito que o sor tá quente lá fora e a casa tá uma baderna!
E foi a correria de sempre o dia todo.
À noite, quando seu Quinzinho chegou do serviço, todo mundo queria ouvir outra história. Sentaram-se todos na sala, em volta dele e ouviram sobre uma mulher de dois metros de altura que tirava trapos da boca, queimava no fogão de lenha e enfiava no nariz.
- Essa muié – Contou seu Quinzinho – Aparece sempre pras pessoa que fala nome feio. Ela põe medo inté a pessoa mijá nas carça, depois enrola ela nos trapo e põe no fogo e enfia as cinza no nariz.
- Valha me Deus!
- Credo em Cruiz! – Cada um soltou uma exclamação diferente.
- Mas num precisa ficá com medo não. Se oceis cumê bastante alho e cebola ela num ataca oceis não... Ela num suporta o chero desses tempero.
- Tá bão! Agora chega Quinzinho, que é hora desse povo i durmi!
Foram todos para seus cantos. A Papilote foi pra beirada da estante, só de olho nas meninas deitadas na cama de solteiro do quartinho da bagunça. Esperou um tempo, até ter certeza que todos estavam dormindo. Levantou-se sorrateiramente e foi resfriar as mãos no congelador.
Andou de vagar, ajoelhou na beira da cama das meninas, puxou a coberta de vagarinho e... Foi uma gritaria danada. Todo mundo acordou pra ver o que tinha acontecido.
A Papilote estava branca e atônita caída no chão do quartinho, as crianças em volta com cara de sono e dona Tianinha com ar de Triunfo.Ela tinha se escondido embaixo da cama. Esperou Maria Papilote chegar perto e puxou suas pernas. A moça ficou tão assustada e, depois do susto, tão envergonhada que decidiu ir embora, de volta pra capital no outro dia.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Papilote - Parte II

No dia seguinte, assim que o sol nasceu, todos acordaram com a barulheira de sempre... Dona Tianinha batendo as panelas e gritando aos plenos pulmões:
- Vamo levantá! O sor tá quente lá fora! Fia recói os cochão e ucê moleque, vai comprá pão!
Tomaram café brigando pelo pão maior, pelo mais branco, pelo mais moreninho, pelo primeiro, pelo último... Como era de costume. Limparam a bagunça e foram pra rua brincar. Dona Tianinha foi à rodoviária buscar a prima. Algumas horas depois ela voltou com a moça e foi logo chamando a criançada pra apresentar-lhes a parenta:
- Meninada, óia aqui a prima doceis! Que belezura de muié! – Mas não era bem assim que as crianças pensavam. Assim que a viram ficaram sabendo porque a chamavam de Maria Papilote. Seus cabelos estavam cheios de papelotes, pra deixar enrolado, como uns bobes improvisados.
Naquela manhã conversaram bastante, as duas primas, e à tarde foram bater perna na cidade. Quando chegou a noite, novamente seu Quinzinho foi contar história. Dessa vez falou sobre uma mulher, na janela da sua casa, esperando alguém passar pra lhe acender o cigarro, quando viu ao longe uma procissão.
- Era meia noite. – Prosseguiu seu Quinzinho. – E a muié tava que tava virano currupio de vontade fumá um cigarro, mas num tinha nem isquero nem fósforo.
- Mas e a procissão? – Perguntou uma das crianças.
- É, e que coisa estranha, procissão de madrugada. – Observou a Papilote.
- Carma! Num era uma procissão comum. Era a procissão das arma penada. Que andava pela rua de madrugada com vela na mão.
- Prá quê? – Perguntou, mais uma vez, a Papilote, que na sua idade já não acreditava mais nessas histórias de assombração.
- Escuita a história!
- Tá bem.
- Quando a procissão passou na frente da janela, a muié grito, pedino fogo, estendeu o braço e uma arma penada deu a vela prela e ela acendeu o cigarro.
- E aí?
- Aí, a hora que ela foi devorvê a vela pra arma penada, a procissão tinha sumido. Então ela apagô a vela e foi jogá fora, mas quando ela viu, a vela tinha virado um pedaço de osso e grudado no braço dela.
As crianças todas com os olhos arregalados, cada vez mais perto umas das outras, esperando, atenciosas o fim da história.
- A muié então, tentou de tudo quanto foi jeito tirá o pedaço de osso do braço, mas num conseguiu... Ficô um ano interinho com aquele pedaço de osso grudado nela. Uma noite dessas ela resorveu ficá na janela de madrugada traveiz. Aí ela viu, lá longe, a procissão da arma penada. Ela espero a procissão passá, esticô o braço e devorveu o osso, que, na hora que arma penada seguro, vortô a sê vela traveiz!
- Pai, credo, que dia que passa essa procissão aí?
- Chega criançada, agora é hora de durmi! – Ralhou dona Tianinha – Maria, aqui nóis improvisa pra durmi viu, cada um num canto, porque é muita gente e num cabe tudo nas cama. Ocê pode durmi ali no canto, perto da estante da sala. Cata esse coxuado aqui, estende lá e pega as coberta ali no guarda ropa.
Maria Papilote não gostou nem um pouquinho da idéia de dormir no chão duro, mas deitou ali e ficou tentando se ajeitar. Passou um tempo lá, olhando pra cima, indignada, pensando numa cama macia pra dormir e olhando duas das primas numa cama de solteiro lá no quartinho da bagunça.
Ela teve uma idéia, levantou-se e foi, pé ante pé, serpenteando até a geladeira. Abriu-a, colocou as duas mãos no congelador, deixou-as lá por um tempo e foi sorrateiramente para perto da cama das meninas. Retirou as cobertas dos pés delas e, sem dó, tascou-lhes um aperto de mão gelado nos tornozelos.
Foi um pulo só e uma gritaria danada. As meninas morrendo de medo saíram correndo do quarto e foram dormir na sala junto com as outras crianças. Maria Papilote, que não era boba, dormiu confortavelmente na cama do quartinho da bagunça.domingo, 13 de dezembro de 2009
Conto: Papilote

Dona Tianinha estava entrando em casa, tropeçando nas filhas e sobrinhas que pareciam mais uma infestação, quando deu a notícia:
- Maria Papilote vem aqui essa semana visitá nóis. Meninada, vamo arrumá bem a casa, prela não sair espaiano que nóis vive num chiqueiro!
- Mas quem qui é essa mãe?
- Que nome, tia!
- Ela é minha prima lá da capitar, ela nasceu aqui e nóis brincava junta quando era criança, mas a minha tia foi embora pra cidade grande há uns par de ano. Mas vamo Pará de prosa. Pode i passano a mão nas vassora.
E foram limpando, varrendo, espanado, lavando... Um bando de meninas que mais parecia um formigueiro. Foi um belo dia de trabalho, até que terminaram a limpeza e a casa ficou um brilho só. Era impressionante uma casa, com aquela quantidade de crianças, estar tão limpa e arrumada. E quando digo “quantidade de crianças”, bota quantidade nisso. Eram três filhas e um filho caçula. Cinco sobrinhas e três sobrinhos, além da dona Tianinha e do seu Quinzinho, o pai.
Na hora de dormir:
- Meninada, vem aqui que eu vô pô uceis pra durmi. Os menino dorme no chão, ali atrais do sofá. Põe aquele coxuado ali e vamo deitá. As menina dorme duas comigo, duas no sofá grande, uma no sofá pequeno e três na cama do quartinho.
- Ahh não! A senhora sabe que nóis num dorme sem história... Cadê o pai, fala prele vim contá história senão nóis num dorme!
- É memo tia Tianinha! Se o tio Quinzinho num vié contá história pá nóis, nóis vamo ficá aqui gritano a noite interinha!!!
E começaram a gritaria. Era um absurdo! Parecia um galinheiro de aves hiperativas sedentas e famintas.
- Tá bão! – Gritou seu Quinzinho lá de fora. – Tô ino, tô ino!
Sentaram-se todos ao redor dele e prestavam bastante atenção na história que falava de um ser estranho que, segundo ele, tinha visto numa fazenda longe dali. O corpo-seco. Ele dizia que uma pessoa que era muito ruim, não morria nunca, virava corpo-seco, e ficava condenado a assombrar os outros pela eternidade.
- Esse corpo-seco meninada, esse aí era pior que os ôto. Além dele sê ruim quenem o cão, ele batia na mãe.
- Credo tio!
- É, ele era tão ruim que um dia ele chegou duma festa na cidade e a mãe dele tinha dexado o cavalo dele fugi. O que que ele feiz?
- O quê???
- Pois a sela na véia, muntô nela e desceu a chibata.
- Que horror!
- É por isso que ele fica lá assombrano a fazenda que era dele...
- Mas esse bicho ixiste memo tio?
- Garanto puceis que ixiste. Ele tem um zóio vermeio quenem fogo.
- Ahh... Eu duvido!
- Ceis pode acreditá! Eu acendi meu cigarro de paia no zoião de fogo dele...
- Tá bão, chega de história, vamo durmi criançada!
- Ahhh mãe!
- Vamo já.
E foram cada um pro seu cantinho dormir.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Caldo de Cana
domingo, 6 de dezembro de 2009
Maíra- Final

segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Maíra - 02

Ela, que estava acostumada com o estupor de sua mesmice tediosa, sentiu-se ferida. Sua realidade pálida havia se chocado fortemente com aqueles olhos tão pretos e inexplicavelmente tão coloridos. Não sabia se estava começando a delirar. Muitos sentimentos passeavam ao seu redor. Não podia decidir se ficava ofendida, ferida, incomodada, ou alegre, estasiada e eufórica. Só sabia de uma coisa. Tinha de deixar a janela, sair do quarto.
Foi ter com seus parentes; jantar com eles. Mas não conseguiu comer olhando para todas aquelas faces sem rostos ao seu redor e todas as vozes retorcidas que ecoavam delas.
Tinha de sair de lá, mas não queria recolher-se, novamente, ao quarto, então, deitou-se no chão da cozinha, embaixo da mesa de jantar, para tentar esconder sua vista das faces sem rostos que tanto a amedrontavam e nauseavam.
Começou a sentir algo estranho em seu corpo. Algo a tocava. Coisas percorriam todo o seu corpo. Passou a debater-se quando percebeu que eram lagartixas pequenas e inquietas, que corriam e serpenteavam por cada pedaço de pele no seu corpo, com aquelas pequenas patas pegajosas. Entravam por sua boca, por seu nariz e por seus olhos. Estava sufocando... Tudo acabou. Um apagão.
Quanto tempo? Não sabia... Não sabia nem se estava pensando, ou se havia morrido... Só sabia que estava no escuro.
Maíra acordou sobressaltada e ofegante, olhou ao redor. O quarto de sempre, com a janela de sempre. No radiorrelógio, dez da manhã; do lado, um termometro, dipirona, uma bacia com água e uma toalha. Em sua cabeça, dor; em sua garganta, também; em sua mente, os olhos, tão pretos e coloridos... (CONTINUA)
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Maíra

Quando parecia que Maíra tornara-se um objeto de decoração em seu próprio quarto, como uma escultura retorcida e esquecida num canto, algo chamou, extraordinariamente, sua atenção. Era uma pessoa; um homem, passando pela rua. Ela não se deu conta dos detalhes desua aparência, estatura, idade, se era gordo, magro, branco ou pardo. Maíra, tão somente, enchergava seus olhos. Profundos olhos que eram um misto de mistério e doçura. Muito pretos. Vítreos. Realmente como um vitral, ou um caleidoscópio, que evocava-lhe as cores mais belas e atraentes... (CONTINUA)
sábado, 29 de agosto de 2009
O Boi

Essa aconteceu no tempo do meu biso, seu Joaquim, que foi testemunha ocular e auditiva do tal acontecido.
Mas vamos começar do começo.
O seu Toninho acordou atrasado, pegou três pamonhas, um pedaço de rapadura e foi comendo pelo caminho até na roça, onde ia colher batata.
Trabalhava um tempinho e bebia um copo de café, que o amigo, seu João, tinha levado.
– Ara, sô! Café mai doce!
– Recrama, mai ta bebeno né, cumpadi!
– Num tem ôto, uai.
E assim seguiu a manhã toda, até chegar a hora do almoço, quando os dos foram tomar suas refeições perto de um barranco.
Seu João comeu arroz, feijão, frango assado e salada de couve. Seu Toninho, que gostava de uma comida forte, mandou pro bucho uma dobradinha, batata doce afogada, macarrão e ovo frito... Tudo com bastante farinha de milho.
– O cumpadi ta firme na bóia hoje né?!
– Ô! Tem que cumê bem,sô. Saco vazio num pára em pé!
Depois que terminaram de comer, ficaram de papo pro ar, só olhando a paisagem. Perceberam, então, que tinha um belo dum boi pastando ali perto. Ficaram observando o bicho, até que seu Toninho levantou-se, foi até uma moita para dar sossego pra barriga que num parava de chiar.
Um tempinho depois, ouviu-se um barulhão. O boi tomou um susto, caiu barranco abaixo, quebrou o pescoço e... Essa foi a primeira vez que um peido rendeu um churrasco daqueles!
domingo, 23 de agosto de 2009
"Rec-rec-rec-rec tuuum!" Parte 2

O padre entrou e fez-se um instante solene de expectativa... Que logo foi interrompido pelo próprio padre saindo correndo pela porta, tropeçando na batina e beijando o chão.
– Seu padre! Pelo amor de Deus, que que tem lá dentro? – Perguntou dona Lúcia.
– Padre, o sinhô ta branco! Que foi que o sinhô viu lá dentro? – Indagou seu Chico.
– Um bicho. – Respondeu o padre. – Um bicho cabeludo.
– Credo! – Todos, em uníssono.
– Um bicho cabeludo, que correu atrás de mim.
– Mas deu pra vê que bicho que era? – Perguntou dona Lúcia, arregalando os olhos, enquanto via dona Maria, a dona da casa, chegando do serviço, espantada com o tumulto na porta de sua residência.
– Num vi, minha fia, tava escuro...
– Ara! Que que tá aconteceno aqui? – Quis saber dona Maria.
– Tem um bicho cabeludo na tua casa cumadi! – Exclamou dona Lúcia. – E correu atrás do padre!
– Bicho cabeludo? Pêra já!
– Cumadi?!
Dona Maria passou por cima de todos e entrou na casa de supetão. Podia-se ouvir:
– Ara! Coisa feia! Que que ocê tá fazeno aí, Xandoca?! Ô Zé! Zé cadê ocê? – Dona Maria saiu na porta. – Argum doceis viu o Zé?
Ninguém entendeu. Parecia uma procissão de gente com cara de tonto.
– Cumadi Maria, ocê num fico com medo da assombração?
– Ara, Lúcia! Que assombração o quê...?
– Que gritêro que é esse Maria? – Chegou seu Zé esbravejando.
– Que gritêro que é esse?! É ocê impiastro de ômi! Cume que ocê me larga a tramela da porta do chiquero aberta?
– Quê?
– É! A Xandoca tá lá dendicasa, patinano no chão encerado. Num consegue andá, patina, patina e cai. “Rec-rec-rec-rec tuuum!”.