terça-feira, 21 de dezembro de 2010

FUNERAL - PARTE 01

Aquele altar doméstico repleto de jarras de água, potes de arroz e alga... Aquelas velas acesas, com as chamas trêmulas por conta da movimentação que rondava a arca mortuária; aquele lenço branco sobre seu rosto; a visão dele deitado ali, imóvel, gélido — talvez gélido, pois ela não chegou a tocá-lo — aquele cheiro forte de incenso... Aquelas pessoas de vestimenta branca, destoando-se rispidamente das flores, tapetes e almofadas vermelhas que decoravam comumente a casa. Tudo aquilo a estava deixando embriagada.
Harumi sentia que ia perder os sentidos a qualquer momento. Tentava concentrar-se na voz do bonzo entoando sutras sagradas, mas as pessoas ao redor, recitando tudo em coro faziam-na sentir cada vez mais encarcerada naquela situação nauseante.
Um funeral, para a tradição, é o momento de demonstrar gratidão ao falecido e refletir nas coisas boas que vieram dele, além da inevitabilidade da morte. Harumi só conseguia pensar nesta última parte — a inevitabilidade da morte.
— Preciso recostar-me em algum lugar. ­— Cochichou para Yasu.
— Mas, senhora, não é apropriado que deixe a vigília, justamente sendo a esposa...
— Viúva! ­— Cortou, com rispidez, a recomendação da criada. — Ajude-me a sair daqui. Falta-me ar, minhas costas doem e esse cheiro de incenso... Esse cheiro de morte está revirando minhas entranhas. Prometo que estarei presente durante a cerimônia de cremação. As pessoas entenderão se eu me ausentar um pouco, devido ao meu estado.
— Mas, senhora...
— Vamos, Yasu! Não discutirei mais. Obedeça e leve-me até o jardim, para que eu possa respirar.
Harumi olhou para o bonzo, o Daimyô e para os familiares de seu falecido marido tentando transmitir-lhes dor pelo olhar, para justificar sua repentina saída durante a vigília. Pareceu-lhe que eles haviam entendido, talvez até consentido, mas para ela era indiferente. Só queria sair dali.
Caminharam um pouco pelo jardim até chegarem a um banco de madeira. Harumi sempre apoiada em sua criada. Parecia não poder mais sustentar o peso do corpo sozinha.
— Deixe-me!
— Senhora...
— Yasu, você está questionando extremamente minhas ordens hoje. Apenas faça!
— E se perguntarem?
— Diga que estou enjoada e com dores e que minha tristeza é tão imensa que tenciona todos os músculos de meu corpo, mas que estarei pronta para a cerimônia de cremação. Venha me pegar aqui quando chegar a hora. Agora vá!
Ouvindo os passos de Yasu distanciando-se pela trilha de pedras, Harumi podia ver nitidamente em sua memória momentos em que se sentava em um banco parecido com aquele, perto do lago na casa de sua família e ficava observando as carpas nadando. Eram coloridas e grandes e pareciam felizes, principalmente quando caía um pequeno fruto de uma árvore qualquer na água e elas disputavam qual o pegaria primeiro. Depois de ficar horas observando o lago, ela corria por entre as árvores, caia sobre as folhas e ficava olhando o céu, mais especificamente as nuvens. Via dragões, coelhos, folhas de chá, tigelas de arroz... Tudo que sua mente juvenil e sonhadora pudesse criar. Ficava ali olhando... Até cair no sono e sonhar. Sempre sonhava com aventuras.
Certa vez sonhou que estava sendo perseguida por um kappa. Uma criatura horripilante parte homem, parte rã que, segundo a mitologia japonesa, alimenta-se de fluidos humanos. Quanto mais ela corria, mais perto o kappa estava, até que ele a agarrou com as ventosas de seus dedos e começou a sugá-la. Ela tinha certeza de morreria naquela hora, mas voando mais rápido que o vento, surgiu um samurai montado em um dragão dourado que despedaçou o kappa com sua katana de ouro, colocou Harumi nas costas do dragão e partiu, levando-a para as estrelas. Um terrível pesadelo que acabou em um belo sonho.
Pensando nessas coisas Harumi acabou por, realmente, adormecer ali no banco de madeira do jardim. Estava, agora, defronte ao lago das carpas, mas todas estavam boiando, de barriga para cima, mortas. A água era suja e malcheirosa. Sentiu-se arrastada dali com força. Não estava mais no lago. Estava num lugar escuro, estirada em um chão de madeira, um peso sobre seu corpo... Mal podia respirar, sentiu uma imensa dor e fez-se um longo e quase eternal silêncio. Viu um vulto, uma armadura, uma espada que cortava ao meio a mais bela flor de sakura que a província já vira. Harumi tentava encontrar sua kaiken para realizar o seppuku, mas foi em vão. O tempo rodopiou vertiginosamente e Harumi casava-se com um samurai em uma estranha e confusa cerimônia... Ela só podia sentir a dor. Não conseguia entender as palavras... Só a dor.

— Ahhhhhhhh! — Gritou com agonia, acordando do sonho, caindo ao chão, abraçando os joelhos e gritando o quanto mais pudesse.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

PRÓLOGO

— As sakura pareciam bem mais graciosas naquela época. — pensou alto, enquanto observava o jardim e estendia um pouco o olhar até o bosque além dos muros que a cercavam. O cantar dos pardais que, antes, alegrava-a extraordinariamente, mais até do que as histórias sobre os destemidos e honrados samurais, agora a deixavam angustiada, aflita, sufocada.
Harumi lembrava-se do tempo em que atraía os olhares de todos na cidadela com a sua incrível beleza, assim com essas exibidas flores rosadas faziam nesta época do ano. Talvez fosse por isso que a incomodava tanto olhar para elas agora. Antes, elas costumavam ser coadjuvantes por onde Harumi passava. Senhores de terras dirigiam-se, com frequência, a sua família com propostas de casamento. Ela se divertia muito em pedir para seu pai recusá-las. Ela fazia muitas das vontades dela, o que era raro entre os patriarcas da época. — Se fosse possível retornar alguns anos... Apagar alguns passos e refazer alguns castelos... — Suspirou alto. Deixou-se levar por devaneios nostálgicos durante algum tempo, enquanto via o vento carregando as dolorosas pétalas rosadas das flores das sakura.
— Harumi, vamos! — Foi trazida de volta à realidade pela voz aguda de sua dama de companhia. — Já está na hora!
— Yasu, venha, ajude-me a levantar... — Era difícil para ela se locomover naquele estado. Apoiou-se nas palmas das mãos firmes e ásperas da criada e se levantou do pequeno banco estofado que ficava abaixo da grande janela do aposento. Deixou escapar um gemido, misto de esforço, desconforto e dor.
— Há algo errado senhora? — Perguntou a criada.
Todas as respostas ríspidas vieram-lhe à mente. Como se aquela velha não soubesse! Eram quase 7200 horas de coisas erradas e ela ainda tinha de ser gentil, cortês e, pior ainda: hospitaleira. Receberia o Daimyô para o chá. Provavelmente ele traria as condolências pela honorável morte horrível e sangrenta de seu marido defendendo a vida de algum membro importante da aristocracia, ou a honra preciosa de uma inocente pétala de sakura. Então, ela simplesmente respondeu:
— Está tudo bem, Yasu. Só um pouco cansada com tudo isso. Agradeço-lhe pela ajuda.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Papilote - Final





Quando amanheceu o dia, dona Tianinha levantou de supetão,dando os passos pesados de sempre e se deparou com um bando de criança dormindo espremida no cantinho da sala, e Maria Pailote toda esparramada, sozinha, na cama do quartinho da bagunça. A matrona tratou de espatifar com a molecada toda e perguntar o que tinha acontecido pra dormir todo mundo ali que nem rato pelado com frio no mato.

Maria Papilote levantou-se enquanto as crianças terminavam de contar o ocorrido na madrugada anterior.

- Dormiu bem prima? – Perguntou doa Tianinha.

- Muito bem! A cama tava muito boa...

- Mas ocê num tinha ido durmi no canto da sala perto da estante?

- Tinha... Mas eu vi a cama vazia e fui deitar lá.

- Bão! Agora vamo toma jeito que o sor tá quente lá fora e a casa tá uma baderna!

E foi a correria de sempre o dia todo.

À noite, quando seu Quinzinho chegou do serviço, todo mundo queria ouvir outra história. Sentaram-se todos na sala, em volta dele e ouviram sobre uma mulher de dois metros de altura que tirava trapos da boca, queimava no fogão de lenha e enfiava no nariz.

- Essa muié – Contou seu Quinzinho – Aparece sempre pras pessoa que fala nome feio. Ela põe medo inté a pessoa mijá nas carça, depois enrola ela nos trapo e põe no fogo e enfia as cinza no nariz.

- Valha me Deus!

- Credo em Cruiz! – Cada um soltou uma exclamação diferente.

- Mas num precisa ficá com medo não. Se oceis cumê bastante alho e cebola ela num ataca oceis não... Ela num suporta o chero desses tempero.

- Tá bão! Agora chega Quinzinho, que é hora desse povo i durmi!

Foram todos para seus cantos. A Papilote foi pra beirada da estante, só de olho nas meninas deitadas na cama de solteiro do quartinho da bagunça. Esperou um tempo, até ter certeza que todos estavam dormindo. Levantou-se sorrateiramente e foi resfriar as mãos no congelador.

Andou de vagar, ajoelhou na beira da cama das meninas, puxou a coberta de vagarinho e... Foi uma gritaria danada. Todo mundo acordou pra ver o que tinha acontecido.

A Papilote estava branca e atônita caída no chão do quartinho, as crianças em volta com cara de sono e dona Tianinha com ar de Triunfo.Ela tinha se escondido embaixo da cama. Esperou Maria Papilote chegar perto e puxou suas pernas. A moça ficou tão assustada e, depois do susto, tão envergonhada que decidiu ir embora, de volta pra capital no outro dia.




segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Papilote - Parte II





No dia seguinte, assim que o sol nasceu, todos acordaram com a barulheira de sempre... Dona Tianinha batendo as panelas e gritando aos plenos pulmões:

- Vamo levantá! O sor tá quente lá fora! Fia recói os cochão e ucê moleque, vai comprá pão!

Tomaram café brigando pelo pão maior, pelo mais branco, pelo mais moreninho, pelo primeiro, pelo último... Como era de costume. Limparam a bagunça e foram pra rua brincar. Dona Tianinha foi à rodoviária buscar a prima. Algumas horas depois ela voltou com a moça e foi logo chamando a criançada pra apresentar-lhes a parenta:

- Meninada, óia aqui a prima doceis! Que belezura de muié! – Mas não era bem assim que as crianças pensavam. Assim que a viram ficaram sabendo porque a chamavam de Maria Papilote. Seus cabelos estavam cheios de papelotes, pra deixar enrolado, como uns bobes improvisados.

Naquela manhã conversaram bastante, as duas primas, e à tarde foram bater perna na cidade. Quando chegou a noite, novamente seu Quinzinho foi contar história. Dessa vez falou sobre uma mulher, na janela da sua casa, esperando alguém passar pra lhe acender o cigarro, quando viu ao longe uma procissão.

- Era meia noite. – Prosseguiu seu Quinzinho. – E a muié tava que tava virano currupio de vontade fumá um cigarro, mas num tinha nem isquero nem fósforo.

- Mas e a procissão? – Perguntou uma das crianças.

- É, e que coisa estranha, procissão de madrugada. – Observou a Papilote.

- Carma! Num era uma procissão comum. Era a procissão das arma penada. Que andava pela rua de madrugada com vela na mão.

- Prá quê? – Perguntou, mais uma vez, a Papilote, que na sua idade já não acreditava mais nessas histórias de assombração.

- Escuita a história!

- Tá bem.

- Quando a procissão passou na frente da janela, a muié grito, pedino fogo, estendeu o braço e uma arma penada deu a vela prela e ela acendeu o cigarro.

- E aí?

- Aí, a hora que ela foi devorvê a vela pra arma penada, a procissão tinha sumido. Então ela apagô a vela e foi jogá fora, mas quando ela viu, a vela tinha virado um pedaço de osso e grudado no braço dela.

As crianças todas com os olhos arregalados, cada vez mais perto umas das outras, esperando, atenciosas o fim da história.

- A muié então, tentou de tudo quanto foi jeito tirá o pedaço de osso do braço, mas num conseguiu... Ficô um ano interinho com aquele pedaço de osso grudado nela. Uma noite dessas ela resorveu ficá na janela de madrugada traveiz. Aí ela viu, lá longe, a procissão da arma penada. Ela espero a procissão passá, esticô o braço e devorveu o osso, que, na hora que arma penada seguro, vortô a sê vela traveiz!

- Pai, credo, que dia que passa essa procissão aí?

- Chega criançada, agora é hora de durmi! – Ralhou dona Tianinha – Maria, aqui nóis improvisa pra durmi viu, cada um num canto, porque é muita gente e num cabe tudo nas cama. Ocê pode durmi ali no canto, perto da estante da sala. Cata esse coxuado aqui, estende lá e pega as coberta ali no guarda ropa.

Maria Papilote não gostou nem um pouquinho da idéia de dormir no chão duro, mas deitou ali e ficou tentando se ajeitar. Passou um tempo lá, olhando pra cima, indignada, pensando numa cama macia pra dormir e olhando duas das primas numa cama de solteiro lá no quartinho da bagunça.

Ela teve uma idéia, levantou-se e foi, pé ante pé, serpenteando até a geladeira. Abriu-a, colocou as duas mãos no congelador, deixou-as lá por um tempo e foi sorrateiramente para perto da cama das meninas. Retirou as cobertas dos pés delas e, sem dó, tascou-lhes um aperto de mão gelado nos tornozelos.

Foi um pulo só e uma gritaria danada. As meninas morrendo de medo saíram correndo do quarto e foram dormir na sala junto com as outras crianças. Maria Papilote, que não era boba, dormiu confortavelmente na cama do quartinho da bagunça.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Conto: Papilote



Dona Tianinha estava entrando em casa, tropeçando nas filhas e sobrinhas que pareciam mais uma infestação, quando deu a notícia:
- Maria Papilote vem aqui essa semana visitá nóis. Meninada, vamo arrumá bem a casa, prela não sair espaiano que nóis vive num chiqueiro!
- Mas quem qui é essa mãe?
- Que nome, tia!
- Ela é minha prima lá da capitar, ela nasceu aqui e nóis brincava junta quando era criança, mas a minha tia foi embora pra cidade grande há uns par de ano. Mas vamo Pará de prosa. Pode i passano a mão nas vassora.
E foram limpando, varrendo, espanado, lavando... Um bando de meninas que mais parecia um formigueiro. Foi um belo dia de trabalho, até que terminaram a limpeza e a casa ficou um brilho só. Era impressionante uma casa, com aquela quantidade de crianças, estar tão limpa e arrumada. E quando digo “quantidade de crianças”, bota quantidade nisso. Eram três filhas e um filho caçula. Cinco sobrinhas e três sobrinhos, além da dona Tianinha e do seu Quinzinho, o pai.
Na hora de dormir:
- Meninada, vem aqui que eu vô pô uceis pra durmi. Os menino dorme no chão, ali atrais do sofá. Põe aquele coxuado ali e vamo deitá. As menina dorme duas comigo, duas no sofá grande, uma no sofá pequeno e três na cama do quartinho.
- Ahh não! A senhora sabe que nóis num dorme sem história... Cadê o pai, fala prele vim contá história senão nóis num dorme!
- É memo tia Tianinha! Se o tio Quinzinho num vié contá história pá nóis, nóis vamo ficá aqui gritano a noite interinha!!!
E começaram a gritaria. Era um absurdo! Parecia um galinheiro de aves hiperativas sedentas e famintas.
- Tá bão! – Gritou seu Quinzinho lá de fora. – Tô ino, tô ino!
Sentaram-se todos ao redor dele e prestavam bastante atenção na história que falava de um ser estranho que, segundo ele, tinha visto numa fazenda longe dali. O corpo-seco. Ele dizia que uma pessoa que era muito ruim, não morria nunca, virava corpo-seco, e ficava condenado a assombrar os outros pela eternidade.
- Esse corpo-seco meninada, esse aí era pior que os ôto. Além dele sê ruim quenem o cão, ele batia na mãe.
- Credo tio!
- É, ele era tão ruim que um dia ele chegou duma festa na cidade e a mãe dele tinha dexado o cavalo dele fugi. O que que ele feiz?
- O quê???
- Pois a sela na véia, muntô nela e desceu a chibata.
- Que horror!
- É por isso que ele fica lá assombrano a fazenda que era dele...
- Mas esse bicho ixiste memo tio?
- Garanto puceis que ixiste. Ele tem um zóio vermeio quenem fogo.
- Ahh... Eu duvido!
- Ceis pode acreditá! Eu acendi meu cigarro de paia no zoião de fogo dele...
- Tá bão, chega de história, vamo durmi criançada!
- Ahhh mãe!
- Vamo já.
E foram cada um pro seu cantinho dormir.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Caldo de Cana



"[CLIENTE] - Dois reais o caldo de cana?! Tá caro heim?!

[ATENDENTE] - Você já viu quanto carro à álcool andando na rua? O Brasil consome vinte bilhões de litros de álcool por ano e a agricultura nacional não está dando conta de produzir tanta cana de açúcar, mesmo aumentando a área cultivada em dezesseis por cento...


[PAUSA]


[CLIENTE] - Me vê uma garrafa pra viagem..."


Este é o texto de um vídeo que rola no intervalo dos programas da TV cultura e me chamou muito a atenção pois ele reflete exatamente o contrário da mentalidade da maioria dos brasileiros. Quem trabalha com atendimento ao público sabe bem disso.

" O meu direito em primeiro lugar", todos pensam, questionam preços, eficiência, dinamismo, inovação e, claro, as empresas devem isso aos seus clientes.

Mas analisando o comportamento dos clientes eu, particularmente, acabo traçando uma linha divisória entre "cliente" e "humano". Da mesma forma que uma pessoa transforma-se completamente ao entrar em um carro, muda também de comportamento ao tornar-se um "cliente", ao estar do lado de fora de um balcão. Nesse momento, a pessoa passa a pensar exclusivamente em ser servida, e bem servida. É quase uma overdose de egoísmo.

Existem, também, algumas pessoas que ultrapassam a fase de querer ser bem servida e querem de toda forma tirar vantagem, ou pelo menos sentir que está em vantagem. Os sentimentos em relação ao atendente ou vendedor se anulam e o cliente nem quer saber se a loja já deveria ter fechado à meia hora atrás, ou se o funcionário deveria ter saído para almoçar a duas horas, ou se existem mais pessoas para ser atendidas.

Se existissem mais clientes com o mesmo modo de pensar do rapaz que comprou o caldo de cana, muitos casos de estresse e depressão poderiam ser evitados.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Maíra- Final



Maíra não era capaz de entender como uma pessoa, ou os lhos de uma pessoa pudessem causar tanto caos em sua mente. Nas noites seguintes, ela sonhava com aqueles olhos pretos e, quando acordava, saia correndo da cama para olhar pela janela, ver se os tais olhos estavam lá.

Naqueles dias, ela não conseguia pensar, comer ou respirar outra coisa além dos olhos. Tudo estava tornando-se um eufórico frenesi que evoluía a cada hora.

Certo dia, a moça tomava café da manhã olhando para fora, o dia indeciso, a chuvinha fina brigando com o sol altivo, quando teve um ímpeto. Decidiu resolver seus problemas. Saiu porta afora e iniciou uma caçada aos olhos pretos que lhe tiravam da sua tão amada e pacífica mesmice patética.

Maíra corria pela rua arborizada sentindo o spray fino da chuva fraca que caía enquanto o forte sol ardia sua pele. Essa mistura de estados metereológcos resultava numa bela explosão de cores no céu, um belo arco-íris, onde podia-se ver todos os espectros de cor. Mas a moça frenética nem percebeu a beleza das cores acima de sua cabeça... Só pensava nos olhos pretos e coloridos. Ela correu muito, e chegou a um lugar ermo, um casebre velho caindo aos pedaços, uma cerca quebrada, um pasto abandonado e um poço.

Ela parou de correr,aproximou-se do poço, olhou para baixo. O que viu? Sobre o espelho d'água, olhos pretos e o belo arco-íris do céu, mas agora na água. Olhos pretos e coloridos.

Maíra sentiu-se envolver por aquela mistura de preto e cores. Sentia as cores entrando por eu corpo, tomando conta de seu estômago, de seu pulmão enquanto os olhos pretos, o preto, tomava conta de sua mente até a completa escuridão.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Maíra - 02



Ela, que estava acostumada com o estupor de sua mesmice tediosa, sentiu-se ferida. Sua realidade pálida havia se chocado fortemente com aqueles olhos tão pretos e inexplicavelmente tão coloridos. Não sabia se estava começando a delirar. Muitos sentimentos passeavam ao seu redor. Não podia decidir se ficava ofendida, ferida, incomodada, ou alegre, estasiada e eufórica. Só sabia de uma coisa. Tinha de deixar a janela, sair do quarto.

Foi ter com seus parentes; jantar com eles. Mas não conseguiu comer olhando para todas aquelas faces sem rostos ao seu redor e todas as vozes retorcidas que ecoavam delas.

Tinha de sair de lá, mas não queria recolher-se, novamente, ao quarto, então, deitou-se no chão da cozinha, embaixo da mesa de jantar, para tentar esconder sua vista das faces sem rostos que tanto a amedrontavam e nauseavam.

Começou a sentir algo estranho em seu corpo. Algo a tocava. Coisas percorriam todo o seu corpo. Passou a debater-se quando percebeu que eram lagartixas pequenas e inquietas, que corriam e serpenteavam por cada pedaço de pele no seu corpo, com aquelas pequenas patas pegajosas. Entravam por sua boca, por seu nariz e por seus olhos. Estava sufocando... Tudo acabou. Um apagão.

Quanto tempo? Não sabia... Não sabia nem se estava pensando, ou se havia morrido... Só sabia que estava no escuro.

Maíra acordou sobressaltada e ofegante, olhou ao redor. O quarto de sempre, com a janela de sempre. No radiorrelógio, dez da manhã; do lado, um termometro, dipirona, uma bacia com água e uma toalha. Em sua cabeça, dor; em sua garganta, também; em sua mente, os olhos, tão pretos e coloridos... (CONTINUA)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Maíra



Maíra estava sentada perto da janela, em seu quarto, olhando o céu imaculadamente azul de um domingo parado, com um sol austero que reinava em tirania. Seus olhos estavam fixos, mas seu olhar era difuso, como se analizasse fria e atentamente o casamento do nada com a monotonia. Tinha a impressão, às vezes, que tudo ganhava uma coloração sépia, a não saer pelo céu. Ficou parada ali quase a tarde toda. Só se distraia quando, eventualmente, um passarinho voava rápido, perto da janela.
Quando parecia que Maíra tornara-se um objeto de decoração em seu próprio quarto, como uma escultura retorcida e esquecida num canto, algo chamou, extraordinariamente, sua atenção. Era uma pessoa; um homem, passando pela rua. Ela não se deu conta dos detalhes desua aparência, estatura, idade, se era gordo, magro, branco ou pardo. Maíra, tão somente, enchergava seus olhos. Profundos olhos que eram um misto de mistério e doçura. Muito pretos. Vítreos. Realmente como um vitral, ou um caleidoscópio, que evocava-lhe as cores mais belas e atraentes... (CONTINUA)

sábado, 29 de agosto de 2009

O Boi



Essa aconteceu no tempo do meu biso, seu Joaquim, que foi testemunha ocular e auditiva do tal acontecido.

Mas vamos começar do começo.

O seu Toninho acordou atrasado, pegou três pamonhas, um pedaço de rapadura e foi comendo pelo caminho até na roça, onde ia colher batata.

Trabalhava um tempinho e bebia um copo de café, que o amigo, seu João, tinha levado.

– Ara, sô! Café mai doce!

– Recrama, mai ta bebeno né, cumpadi!

– Num tem ôto, uai.

E assim seguiu a manhã toda, até chegar a hora do almoço, quando os dos foram tomar suas refeições perto de um barranco.

Seu João comeu arroz, feijão, frango assado e salada de couve. Seu Toninho, que gostava de uma comida forte, mandou pro bucho uma dobradinha, batata doce afogada, macarrão e ovo frito... Tudo com bastante farinha de milho.

– O cumpadi ta firme na bóia hoje né?!

– Ô! Tem que cumê bem,sô. Saco vazio num pára em pé!

Depois que terminaram de comer, ficaram de papo pro ar, só olhando a paisagem. Perceberam, então, que tinha um belo dum boi pastando ali perto. Ficaram observando o bicho, até que seu Toninho levantou-se, foi até uma moita para dar sossego pra barriga que num parava de chiar.

Um tempinho depois, ouviu-se um barulhão. O boi tomou um susto, caiu barranco abaixo, quebrou o pescoço e... Essa foi a primeira vez que um peido rendeu um churrasco daqueles!

domingo, 23 de agosto de 2009

"Rec-rec-rec-rec tuuum!" Parte 2



O padre entrou e fez-se um instante solene de expectativa... Que logo foi interrompido pelo próprio padre saindo correndo pela porta, tropeçando na batina e beijando o chão.

– Seu padre! Pelo amor de Deus, que que tem lá dentro? – Perguntou dona Lúcia.

– Padre, o sinhô ta branco! Que foi que o sinhô viu lá dentro? – Indagou seu Chico.

– Um bicho. – Respondeu o padre. – Um bicho cabeludo.

– Credo! – Todos, em uníssono.

– Um bicho cabeludo, que correu atrás de mim.

– Mas deu pra vê que bicho que era? – Perguntou dona Lúcia, arregalando os olhos, enquanto via dona Maria, a dona da casa, chegando do serviço, espantada com o tumulto na porta de sua residência.

– Num vi, minha fia, tava escuro...

– Ara! Que que tá aconteceno aqui? – Quis saber dona Maria.

– Tem um bicho cabeludo na tua casa cumadi! – Exclamou dona Lúcia. – E correu atrás do padre!

– Bicho cabeludo? Pêra já!

– Cumadi?!

Dona Maria passou por cima de todos e entrou na casa de supetão. Podia-se ouvir:

– Ara! Coisa feia! Que que ocê tá fazeno aí, Xandoca?! Ô Zé! Zé cadê ocê? – Dona Maria saiu na porta. – Argum doceis viu o Zé?

Ninguém entendeu. Parecia uma procissão de gente com cara de tonto.

– Cumadi Maria, ocê num fico com medo da assombração?

– Ara, Lúcia! Que assombração o quê...?

– Que gritêro que é esse Maria? – Chegou seu Zé esbravejando.

– Que gritêro que é esse?! É ocê impiastro de ômi! Cume que ocê me larga a tramela da porta do chiquero aberta?

– Quê?

– É! A Xandoca tá lá dendicasa, patinano no chão encerado. Num consegue andá, patina, patina e cai. “Rec-rec-rec-rec tuuum!”.

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